Antonio Luiz Batista de Macêdo
BrasilAshoka Fellow desde 1990

Antonio Luiz Macedo, um seringueiro, está experimentando muitas novas maneiras de tornar a floresta tropical mais produtiva. Se ele conseguir fazer de Juruá, uma grande reserva extrativista amazônica na fronteira com a Bolívia, um sucesso econômico e organizacional, essa nova abordagem para harmonizar as necessidades das pessoas e da floresta ganhará grande nova credibilidade.

A Pessoa

A vida de Macedo o preparou bem para a tarefa. Além de ser seringueiro, ele é um autodidata da Amazônia com profundo conhecimento da floresta e de seu povo (está escrevendo a Enciclopédia do Povo da Floresta) e possui anos de experiência profissional servindo aos seringueiros. Macedo era nascido no Acre. Até o momento, ele passou a maior parte de sua vida trabalhando em diversos cargos públicos, tanto no governo quanto na Fundação Nacional do Índio e no Conselho Nacional dos Seringueiros, gerenciando projetos sociais e econômicos para as populações indígenas locais. Além disso, Macedo desempenhou um papel fundador tanto na Comissão Pró-Índio quanto na Amazônia Verde e Vida (uma organização ambiental sem fins lucrativos). Pessoa quieta e discreta, Macedo evitou um perfil político elevado, apesar de todas as disputas e paixões pela que esta região de fronteira é agora tão notória, o que o ajuda a trabalhar de forma independente com sua própria visão de longo prazo. Essa longa experiência o deixou muito consciente das muitas forças e interesses diversos e complexos que atuam na Amazônia, e ele aprendeu uma grande habilidade em obter apoio e reunir equipes muito diversas para trabalhar com questões específicas.

A Nova Idéia

O objetivo de Macedo é mostrar como as novas reservas extrativistas do Brasil podem funcionar na prática. A ideia das reservas é muito persuasiva. Para que a floresta sobreviva, sua população humana deve ser capaz de viver dela de forma sustentável e boa. Na medida em que isso for verdade, cada um apoiará o outro. Visto que o rendimento mais alto de uma floresta viva requer muitos usos que se sobrepõem - extração de borracha, coleta de nozes e ingredientes medicinais, caça, pesca - os direitos humanos e as responsabilidades devem ser organizados de acordo. A lei de propriedade tradicional no Brasil, entretanto, dá a uma pessoa o controle exclusivo sobre cada pedaço de terra. Esse arranjo faz sentido para fazendas, ranchos, fábricas e locais residenciais, mas torna o uso ordenado e múltiplo de uma floresta quase impossível. A propriedade única de florestas levou apenas à exploração e a conflitos crônicos nas últimas décadas na Amazônia. As reservas extrativas fornecem uma estrutura para a vida na Amazônia especificamente ajustada às realidades. Cada usuário recebe o direito de "propriedade" de continuar e desenvolver ainda mais o uso (por exemplo, extração de borracha) em que se engajou antes, sujeito às restrições ambientais e de autogovernança da comunidade. O governo concede o uso da reserva a seus residentes por meio de associações legalmente constituídas, que por sua vez desenvolvem economicamente a reserva. Desde 1989, aproximadamente sete milhões de acres da Amazônia foram reservados para reservas extrativistas. A implementação dessas reservas está agora em seu estágio inicial e crítico. Se as reservas provarem ser econômica e organizacionalmente bem-sucedidas, milhões de acres a mais da floresta amazônica podem ser salvos e o sustento de centenas de milhares de caçadores de borracha e outros residentes da floresta pode ser substancialmente melhorado à medida que novas reservas se enraízam. Juruá foi uma das primeiras reservas a ser estabelecida por lei, e Macedo é responsável por convencer os planejadores a delinear a reserva com o dobro do tamanho originalmente planejado. Seu impacto ecológico total será especialmente grande porque faz fronteira com um parque nacional maior. Juntos, eles criam uma enorme área protegida.Jurua também é uma das reservas mais avançadas em termos de implementação. Os inúmeros novos empreendimentos que Macedo está testando e desenvolvendo em Juruá são aplicáveis com diferentes graus de adaptação à maior parte da Amazônia. Juruá é um importante campo de testes que influenciará o futuro do restante da floresta tropical. Consciente da importância de seu trabalho como modelo para muitas outras áreas, Macedo ataca várias áreas ao mesmo tempo. Em primeiro lugar, ele busca novos produtos de alto valor nos mercados internacionais. Ele tem uma equipe de especialistas e alunos trabalhando em "óleos e folhas", identificando potenciais chás, remédios, perfumes etc. Outro exemplo é o marfim vegetal, uma semente que tem a mesma aparência do marfim dos elefantes. Esta semente não só oferece benefícios econômicos potenciais de sua exportação, mas poderia criar uma indústria local, ambientalmente correta e de alto valor agregado se as pessoas nas reservas pudessem ser treinadas para esculpir e fazer joias com ela. Segundo, ele está trabalhando para melhorar produção, corte de custos e agregue valor aos produtos existentes. Os custos de produção da borracha, por exemplo, podem ser reduzidos significativamente com o processamento da matéria-prima mais próximo do local de coleta original e com a incorporação de novas tecnologias, como painéis solares. Macedo também está atualizando doces caseiros para vender em mercados alternativos dispostos a pagar um prêmio pela conservação. Uma marca registrada de reserva extrativista também está sendo elaborada. Em terceiro lugar, Macedo acredita que as atividades extrativas por si só não são suficientes para sustentar a população presente e futura da reserva com padrões de vida aceitáveis. Por isso, ele desenvolve uma série de atividades que envolvem um manejo florestal mais intenso, com agricultura, pesca e criação de animais adequadas. Por exemplo, o aumento da densidade de palmeiras em certas áreas tornaria economicamente viável a colheita regular de palmito. Por fim, Macedo está começando a trabalhar em partes da reserva que já foram desmatadas, examinando seu potencial de reflorestamento e especialidades usos agrícolas.

O problema

A reserva extrativista é uma solução para vários problemas cada vez mais, amplamente reconhecidos e muito sérios: (1) a destruição da floresta amazônica, especialmente em regiões onde a terra não pode ser usada de forma sustentável para qualquer propósito de maior valor, com todos os danos decorrentes à atmosfera mundial e à diversidade de espécies; e (2) a destruição paralela dos modos de vida dos vários milhões de habitantes da Amazônia. No entanto, a ideia da reserva extrativista deve agora ser comprovada. Embora grande parte do governo brasileiro já tenha aceitado e até mesmo popularizado a ideia, as reservas devem funcionar em operação prática antes que possam ser declaradas com segurança um padrão-chave que ajudará a definir o futuro da região. Se a reserva extrativista não puder ser comprovada como viável em breve solução para resolver os problemas da floresta tropical, em pouco tempo ela pode desaparecer ou ser rotulada como mais uma iniciativa verde irrealista. Este é o principal problema que Macedo se propõe a enfrentar. No nível operacional, ele enfrenta muitos problemas difíceis. Ele deve lidar habilmente com muitos constituintes complexos - começando com os seringueiros e suas organizações em Juruá e no nível do Conselho Nacional. Os seringueiros têm necessidades imediatas e agendas políticas que nem sempre são consistentes com a preservação da floresta a longo prazo. Outras relações também exigem um manejo cuidadoso. Do governo brasileiro às organizações internacionais, existem muitos aliados em potencial com agendas conflitantes que precisam ser enquadradas em uma estratégia flexível e em evolução.

A Estratégia

Macedo estabeleceu como meta "fazer as reservas funcionarem em cinco anos". Isso significa que, nos próximos anos, ele deve desenvolver e testar muitas ideias geradoras de renda. Ele também deve testar e ajudar as novas comunidades e instituições econômicas dos moradores da reserva. Para desenvolver essas alternativas, Macedo reuniu apoio financeiro e ajuda técnica de um grande número de pessoas e instituições: de técnicos do governo do Instituto Brasileiro da Amazônia para estudantes universitários; de especialistas em fragrâncias em busca de novos perfumes a nutricionistas testando plantas locais quanto ao conteúdo nutricional e criando novos usos; de Ben and Jerry's ao Príncipe de Gales. Macedo deve arrecadar fundos, supervisionar o trabalho técnico, buscar novos mercados e novos aliados e responder à imprensa nacional e internacional, tudo em um ambiente tenso. Quando perguntado como ele poderia fazer todas essas coisas ao mesmo tempo e fazê-las bem , ele traçou um paralelo entre seu trabalho e a floresta cujo próprio sucesso está em sua diversidade. “Eu, como a floresta, tenho muitas 'espécies' de iniciativas; se alguém adoece e morre, não mata a floresta. Ao mesmo tempo, eu 'uso bem os nutrientes'; ou seja, diferentes iniciativas recorrem a diferentes recursos então você pode ter muitas espécies em uma área pobre em nutrientes. "