João Cláudio Lara Fernandes
BrasilAshoka Fellow desde 1988

Ashoka comemora e celebra a vida e o trabalho deste Ashoka Fellow falecido.

Há muito tempo João Claudio busca a maneira mais eficaz de servir aos pobres: primeiro como jesuíta, depois como ativista social e agora como médico, desenvolvendo novas maneiras de fornecer atendimento médico de primeira classe aos moradores de favelas no Brasil.

A Pessoa

João Claudio estava na universidade durante os carregados anos de 1970. Ele deixou a faculdade de medicina no segundo ano e entrou para a ordem dos Jesuítas, inspirado pelas possibilidades de trabalho comunitário e do Movimento da Teologia da Libertação, que então estava no auge. Sua experiência de trabalho no nível de base o levou de volta à faculdade de medicina, acreditando que ele poderia ser mais eficaz ajudando comunidades pobres como médico. De volta à universidade, ele se envolveu com o movimento estudantil, deixou a ordem dos Jesuítas, aprofundou seu envolvimento político e trabalhou em jornais e em várias campanhas políticas. Desiludiu-se com a política partidária e partiu para construir uma carreira onde pudesse ter um impacto significativo compatível com seus valores éticos.

A Nova Idéia

João está gradualmente desenvolvendo maneiras de integrar os cuidados de saúde para os pobres, tanto vertical quanto horizontalmente. A integração vertical conecta todos - desde trabalhadores comunitários locais a postos de saúde comunitários e municipais até hospitais sofisticados - em um serviço econômico e unificado. A integração horizontal garante a cada paciente o acesso guiado por médico a toda a gama de ciências da saúde: preventivas e curativas, homeopáticas e alopáticas, e psicológicas, bem como médicas e odontológicas. Seu plano está dando certo para as pessoas que ele atende por meio do posto de saúde comunitário que ele criou na favela de Rocinah, no Rio de Janeiro. Enquanto a maioria dos pacientes públicos atendidos por médicos públicos obtém apenas uma consulta de apenas um ou dois minutos, a consulta média em seu posto é de 20 minutos. Ele atraiu seis psicólogos para trabalharem como voluntários por várias horas semanais e abriu serviços odontológicos. Ele organiza programas de educação comunitária, incluindo o uso extensivo de teatro de rua. Ele começou a trabalhar com o Ashoka Fellow Emilio Eigenheer para lançar um programa comunitário para gerenciar os resíduos da área. Ele consegue fazer os exames laboratoriais do hospital em 24 horas, embora normalmente demore várias semanas para os próprios pacientes do hospital. Ele está desenvolvendo uma série de inovações de serviço, por exemplo, um livro portátil de registros médicos que os pacientes podem carregar com eles. João Cláudio tem conseguido por vários motivos: é reconhecido como médico de primeira classe pela sua profissão; ele entende seus clientes e sua comunidade e é totalmente aceito por eles; ele tem uma percepção instintiva das instituições humanas e da mudança organizacional; e ele combina equilíbrio pessoal com comprometimento, criatividade e visão. Por exemplo, como ele conseguiu fazer com que os grandes hospitais prestassem pronto atendimento aos seus pacientes pobres? Ele controlou cuidadosamente os encaminhamentos (apenas 7% dos casos de seu posto são encaminhados) e convenceu o hospital de que está apenas enviando pacientes cuidadosamente selecionados que precisam do teste ou da ajuda indicada. Portanto, é provável que suas referências sejam um uso econômico do tempo e dos recursos da equipe do hospital. Seu cuidadoso sistema de rastreamento estatístico ajuda a levar esse argumento às instituições específicas onde ele procura ajuda. Também vai ajudar de forma mais ampla, na medida em que ele tenta difundir seu modelo, que além de ser mais econômico, oferece um atendimento melhor. O objetivo de João Claudio é muito mais amplo do que servir a uma comunidade. Rocinah é seu laboratório e projeto de demonstração, mas não é onde termina seu trabalho. Ele está atraindo cada vez mais estudantes de medicina para fazer parte de seu treinamento com ele, e já vários de seus "graduados" estão abrindo novos centros em outras áreas pobres. Essa gravata dá a suas ideias maior credibilidade e visibilidade na comunidade médica. Ele está reunindo outros grupos de saúde da favela para usar suas ferramentas estatísticas e de gestão. Ele está falando e escrevendo para as principais instituições médicas. O objetivo de João Claudio é promover uma mudança institucional. Ele está trabalhando para reunir as partes muito distintas do esforço de saúde do Brasil para construir um sistema geral melhor - e está gradualmente refinando e demonstrando passos concretos nessa direção que fazem sentido para cada um dos atores.

O problema

O sistema público de saúde brasileiro, com 30 anos de existência, não oferece atendimento adequado, mesmo em termos quantitativos, muito menos qualitativos. Ela convive com grandes hospitais projetados para abrigar e oferecer as mais sofisticadas técnicas médicas e serviços especializados. A natureza e os incentivos das complicadas burocracias que dirigem os hospitais tornam a atenção primária difícil de obter e muito cara. A educação médica, por sua vez, é projetada para alimentar seus graduados neste sistema: os médicos são treinados para funções altamente especializadas e suas opções de emprego geralmente são limitadas ao sistema nacional ou a um consultório particular difícil de estabelecer.

A Estratégia

João Claudio, que trabalha na Rocinah, está constantemente fazendo experiências para encontrar maneiras de reintegrar e reorientar as fraturadas instituições de saúde do Brasil. Ele ainda não tem um projeto completo, mas uma mudança institucional concreta já começou. Ele tem estudantes de medicina, jovens médicos e praticantes estabelecidos engajados no trabalho; ele está começando a fazer da medicina comunitária uma opção de carreira desafiadora e atraente; e ele está engajando várias das principais instituições médicas do país em experiências com maneiras de servir bairros e clientes pobres. Desde o início, ele reconheceu que deve lidar com a economia. Ele acha que pode demonstrar que sua abordagem economiza dinheiro em geral. Ele já demonstrou a várias instituições médicas importantes que os resgata de inundações de casos doentes ou não examinados. Ele acaba de persuadir uma das agências que reembolsam os médicos que atendem aos pobres a experimentarem fórmulas não pagas à peça.